Sobre Conceitos, Famílias e o Diabo

Crescer é se afastar do ponto de origem. Essa é minha definição para crescimento. Mesmo se distanciando da origem, aquele ou aquilo que se expande sempre leva consigo algo de original. Não “original” no sentido de novo, mas no sentido de algo que é próprio de uma origem! E isso que se mantém é a Essência.

Conceitos também podem crescer. Em geral, eles também mantém algo da essência, mudando apenas nas aparências, nas formas.


Numa imagem astronômica: conceitos e ideias em geral possuem um centro gravitacional. Ao redor orbitam as coerências, as ideias que se relacionam e sustentam o conceito (e vice-versa). O campo gravitacional é grande e algumas ideias mais afastadas ainda conseguem se relacionar com o núcleo, mesmo que indiretamente.

É como um Big Bang, talvez… Uma grande explosão lançando formas para todos os lados, mas ainda assim as prendendo numa ideia central, uma essência, como numa corrente.

As aparências que vão ficando distantes do núcleo podem ser superficiais por um tempo, mas podem também se solidificar e se fortalecer, ganhando peso e se aproximando do centro. É tudo muito mutável, pois tudo depende do entendimento humano, que por sua vez é dinâmico demais para permanecer preso por muito tempo em velhas formas.

Até as questões religiosas se transformam com o tempo, se adaptam à dinâmica da cultura humana, porém a essência não se perde.


Penso que algumas ideias se perdem ao crescerem demais e muito rápido. Se perdem do centro de origem. Sozinhas tentam se sustentar e formar seu próprio núcleo. Mas sem coerência elas não duram muito tempo.

Acho que a metáfora do anjo caído é perfeita para ilustrar isso.


O conceito de família cresceu. Mudou em aparências, tornando-se muito diferente das formas antigas de família. Em essência é tudo a mesma coisa.

As tentativas de dominação de um discurso de afirmação de um conceito estão fadadas ao fracasso. É como no livro 1984, onde tiram a palavra “liberdade” do dicionário para que as futuras gerações não a desejem. Não funcionaria, pois mesmo sem saber como nomear um desejo, a consciência de que algo precisa mudar ainda seria real, ainda haveria insatisfação com algo e o sujeito insatisfeito em algum momento negaria o que lhe é imposto, na negação nasce a liberdade, não importando o nome que ela tenha.

Assim, acho que volto ao Platonismo, ao colocar os Conceitos acima da capacidade discursiva do ser humano. Não importa qual seja sua cultura, alguns ideais estão acima e sempre terão suas essências reconhecidas em qualquer época e lugar.


O “conservador subversivo” fazendo uso da estética das intervenções para propagar um pensamento reacionário. Que ironia! A linguagem que era tradicionalmente associada ao pensamento revolucionário sendo adotada por quem é contra a revolução. Não é novidade. Anos atrás, a cidade tinha muitos “Jesus” escritos em postes e muros.

Penso na questão Forma X Conteúdo e também na ideia de imposição e manutenção de discursos. Imposição porque na subversão ninguém pede licença.

Se o pensamento conservador sente a necessidade de subverter-se é porque acredita que está perdendo o espaço de propagação de seu discurso, coisa que as minorias de verdade raramente têm. Ou talvez a necessidade de discursar por meios não ortodoxos seja uma mentira estratégica.

De qualquer forma o conservador precisando revolucionar é um sinal que as mudanças no paradigma são reais. É sinal de que estão perdendo a guerra dos discursos. Não pela Essência do conceito, mas pela Aparência que embrulha o discurso como um rótulo de uma propaganda.

“A minha forma de família é a correta e não a sua!”

Foucault, se não me engano, dizia que numa guerra de discursos o que está sendo disputado é o espaço e o poder de discursar. Empurrando sempre os perdedores para a periferia.

Ou seja, o objeto da vitória dessa guerra é apenas a preservação do discurso. Nem parece haver um objeto real em questão.

Não basta o sujeito ter o direito de fazer a sua família do jeito que quer, ele precisa ainda ser o dono da Verdade do que é Família. Ele tem que ser o único a discursar sobre o tema, como se pudesse ser dono da Essência, sendo que o tempo todo está lidando, no campo de batalha, apenas com a Forma, com as Aparências.

Tal como um Lúcifer, “portador da luz”, afastando-se da Origem e apenas pelas aparências, alimentando a própria inveja e vaidade, desejando ser ele próprio a Luz da Verdade.


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