Errado e o Diabo

Venha ver de novo o nascer do Agosto.
Venha implorar pelo desprezo do despojo,
rotulando as formas cancerígenas de toda tua escória.

Mortalha velha, face disforme, consome a droga, vem e dorme.

Caminha cão torto, perna manca, peso morto.

Corvo negro, lápide vazia, sombra desgraçada esqueça a água fria.

Prepare o parto, prepare o luto.
Invada o quarto, crie o tumulto.
Abrace o nome que não foi dito.

Invoque a chama que não chamas.
A luz que não se apaga.
O Sol que não te abandona na noite.

Face lunar.
Pecado a se pecar.
Rasgando o véu que não te serve,
sirva-se do verme que de ti se serve.

Conte tuas moedas, junte teus despojos.
Erga tua espada, e invoque meu nome.

Invoque meu nome.

Invoque meu nome.

Crie em ti a coragem que me consome.

O medo vem lhe beijar a face de boa noite.
Na sarjeta que vomitas tuas preces mudas, rasgue o véu que não te serve.

Ouça o chamado de uma lebre.
O sangue quente que não corre mais.
Apodreça ao lado de teus pais.

Invoque meu nome.

Invoque meu nome.

Invoque o medo que carregas no abdômen.

Traça.
Trace a lousa.
Trace a linha que separa tua alma.
Rasque o véu que não te olha.
Quebre o espelho. Destrua o reflexo.
Desfaça o desconexo.
Desprenda sua agonia.
Lace o final do dia.
Abrace a noite como a noite a braça o dia e o devora.
Esqueça o mundo que lhe ignora.

Invoque meu nome.

Clame o fim do mundo.
Abrace a descrença.
Derrube a velha de suas muletas.
Agarre a pena preta.
Acenda a chama.
Ilumine o vazio.
Erga-se no triunfo de um dia perdido.
Ouça o chamado para o absurdo.

Ilógica.

Imatéria.

Ignore a vida que ele leva.

Beba meu sangue.
Devore minha alma.
Consuma minha vida.
Espalhe minhas mentiras.

Conte ao mundo,
conte ao mundo o meu nome.

Ilustre meu destino.
Carregue-me no intestino.
Verme.

Verme.

Nada do que se faz.
Nada do que se erre.

Engula o vício na madrugada.
Acenda a vela da última promessa vazia.
Ignore o nascer de um novo dia.

Novo dia. Nova agonia.

Encare a derrota com o sorriso de uma velha morta.
Cuspa no chão todo o escárnio maldito que lhe roubaram da vida…

Amaldiçoe o céu do novo dia.

Excomungue meu nome.

Arranca-o de teu peito.
Invoque nas cinco pontas.
Os quatro pontos.
Chame os nomes do que não vêem .
Clame aos berros os nomes dos que não caem.

Desenhe no ar.
Desenhe no mar.
Mas continue a olhar.
O reflexo morto de um dia de agosto.
Guarde as moedas em teu bolso.

Corte o pulso de seu mau agouro.
Apague a tocha e beba o sangue…
Faça tudo ser funesto, amaldiçoe todo resto,
mas nunca mais invoque meu nome!

Chame-me de diabo,
chame-me de excomungado,
maldito,
desgraçado,
verme miserável,
mas nunca mais,
jamais,
me chame Errado!

[Outubro de 2008]

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