Eros, Narciso e O Outro…

Quem está familiarizado com a “modernidade líquida” já tem uma ideia de que o amor nos dia de hoje está desaparecendo, em parte por causa do excesso de liberdade de escolha que nos aparece graças aos meios tecnológicos, que otimizam nossas relações (já reduzidas a conjuntos de dados), em instantes mecânicos de cliques. Mas talvez não seja apenas a grande oferta de Outros e essa liberdade de escolha que causam a crise no amor, mas sim o próprio desgaste do que entendemos por O Outro.

O Outro é o sujeito do qual Eu tenho (ou deveria ter), consciência. É Aquele que aparece para mim e reconheço também como sujeito consciente e que, assim como eu o julgo, ele também me julga, pois eu também sou Outro para ele.

O amor Eros é um desejo pelo O Outro. Uma experiência que reconhece O Outro como um não-Eu, um alguém diferente a ser conhecido. Porém a libido nos dias de hoje é voltada para a própria subjetividade do indivíduo. Uma forma narcisística de amor, que não se deve confundir com amor próprio, pois no amor próprio ainda há uma relação com O Outro, enquanto que o narcisista não percebe O Outro, não como sujeito.

Vemos exemplos desse amor narcisista nas redes sociais online e nos aplicativos de relacionamentos, onde o indivíduo busca o seu igual, através de comparações de dados e abre mão do mistério que Eros envolve. Em outras palavras, buscamos a nós mesmos como objetos refletidos no Outro. Enquanto que o amor Eros arranca o sujeito de si mesmo e direciona para O Outro.

O amor narcisista é positivista, no sentido de que lida com dado concreto, limitado e objetivado do que entendemos de um Eu próprio. É ser aquilo que se é. Afirmativamente é apenas aquilo.

O amor Eros diz respeito a negatividade na aproximação do Outro. Negativo aqui significa tudo aquilo que não é. Então O Outro não é objetificado. Ele é o desconhecido, o mistério e as possibilidades. A outra pessoa pode não ser como eu a imaginava. Pode não ser de diversas formas e esse desconhecimento todo faz parte da relação de desejo que existe em Eros. O amor é um palco de dois onde se rompe a perspectiva do Um para se assumir a do Outro. Ele é sempre diverso. E há uma ideia de fracasso nas relações bem sucedidas em Eros, pois o sujeito, de certa forma, renuncia a consciência de si mesmo.

A forma de amor narcisista, fruto do pensamento liberal, coloca também o sujeito numa relação de Senhor e Escravo, de empreendedor de si mesmo, que se manifesta na auto-exploração. O sujeito tendo como imperativo a ideia de ser livre, ser aquele que tudo pode e que se responsabiliza por seus próprios fracassos, se torna servo da busca pela própria liberdade.

Culpa e gratificação são ideias que dependem da relação com O Outro. Base das religiões. Se tiramos O Outro da relação então o sujeito não tem por onde expiar a culpa, por exemplo. Os discursos motivacionais e liberais, que pregam a liberdade do indivíduo acima de toda circunstância, estão cheios de ideias que excluem O Outro e focam apenas nas capacidades do indivíduo. É a ditadura do desempenho alimentando o amor narcisista e excluindo o amor Eros.

Nas relações sexuais essa noção de desempenho transforma o corpo em mercadoria. O Outro passa a ser objeto de excitação. É a pornografização do mundo, que profana o erótico (de Eros). Profanar significa dar uso comum a algo que já foi sagrado, que por sua vez era algo que já havia sido separado, dedicado aos deuses, tinha seu valor em si e não na utilidade gerada na profanação.

O mundo contemporâneo nos bombardeia com informações visuais que estimulam a nossa imaginação que por sua vez se relaciona com o Eros. Não há desejo sem imaginação. Esse excesso de informação visual afeta os padrões de gosto e as expectativas que criamos para nossos desejos, resultando num aumento de decepções, pois elevamos demais nossas exigências. O capitalismo, via publicidade e todas as mídias, é responsável por pré-determinar muito dos nossos desejos e ditar esses padrões de exigência através de suas imagens. Hoje não podemos mais fechar os olhos para esses bombardeios de informações. Experimente desligar seu smartphone só por um dia! O mundo não aceita. Porém o amor Eros não pode ser o desejo pré-determinado, pois tudo que é erótico envolve o mistério do desconhecido. É preciso haver um pouco de acaso, de surpresa e de espanto. Ser subitamente flechado.

Sem Eros a existência se torna um mero viver. O sujeito é domesticado numa vida de consumo desprovida de risco. Seu amor se torna mera positividade, sem mistério, sem transcendência, sem transgressão, incapaz de uma verdadeira experiência erótica. O pensamento sem Eros é mera repetição e o amor sem Eros é mera sensorialidade.

Baseado no livro Agonia do Eros, de Byung-Chul Han – filósofo contemporâneo Coreano e com formação na Alemanha, que me faz pensar numa espécie de Tyler Durden do Zygmunt Bauman.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *